Se fôssemos acreditar em tudo o que os filmes, as novelas e as redes sociais nos mostram, a mulher ideal seria uma criatura incansável. Depois de um dia exaustivo de trabalho, reuniões, cuidados com a casa e com a família, ela magicamente entraria no quarto revigorada, sedutora e com a libido nas alturas, pronta para uma noite de paixão.
No entanto, se você está lendo este texto agora, é muito provável que a sua realidade seja bem diferente. E eu quero começar esta conversa com uma afirmação libertadora: está tudo bem com você.
A cobrança para estar sempre disponível e com o desejo em alta tem adoecido muitas mulheres silenciosamente. No meu consultório, ouço relatos dolorosos de pacientes que se sentem “quebradas” ou “defeituosas” porque a libido, simplesmente, parece ter desaparecido.
Ninguém fala sobre rotina, nutrição, exercícios, hormônios ou até mesmo sobre como ligar esse corpo lindamente complexo.
Por isso, vamos conversar sobre como tirar o peso dessa obrigação dos seus ombros e descobrir um caminho mais gentil e poderoso de viver a sua feminilidade.
A culpa invisível que acompanha a intimidade
O problema ganha força quando a falta de desejo espontâneo se transforma em culpa. Você ama o seu parceiro ou parceira, deseja ter momentos de prazer e conexão, quer se divertir, mas o seu corpo parece não acompanhar a vontade da sua mente. O cansaço fala mais alto. Virar boa de cama se torna sinônimo de colocar a cabeça no travesseiro e dormir em poucos minutos.
Nesse cenário, muitas de nós entram no modo de sobrevivência e acabam cedendo à intimidade apenas para agradar o outro. Focamos no bem-estar de quem amamos, tentamos evitar conflitos no relacionamento e, sem perceber, nos desconectamos do nosso próprio corpo. A intimidade, que deveria ser um momento de recarga e prazer, passa a ser encarada como mais um item na sua longa lista de tarefas diárias. Prazer se torna uma palavra em filmes, séries e… dicionário.
E aqui reside o grande perigo: quando transformamos o prazer em uma obrigação, o nosso cérebro começa a criar uma aversão sutil àquele momento. Dessa forma, o que deveria ser leve torna-se pesado. O que deveria ser um encontro, vira um desencontro de si mesma.
A carga mental e o bloqueio do desejo feminino
Como médica psiquiatra, preciso te explicar algo fundamental sobre o funcionamento do cérebro feminino. O nosso maior órgão sexual não é físico, ele é mental. E quer uma bomba maior? Isso é tanto para homens quanto para as mulheres.
Quando você deita a cabeça no travesseiro, mas a sua mente continua repassando a lista de compras do supermercado, a apresentação do trabalho para o dia seguinte ou a febre do seu filho, o seu sistema nervoso está em estado de alerta. O cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, inunda a sua corrente sanguínea.
Fisiologicamente, é impossível que o corpo sinta desejo quando o cérebro entende que há “ameaças” ou problemas a serem resolvidos. A libido é um estado de relaxamento e entrega. Portanto, a sua falta de desejo não é um defeito seu. Na verdade é uma resposta perfeitamente normal de um corpo e de uma mente que estão sobrecarregados. Você não perdeu a sua sensualidade, ela apenas está escondida debaixo de camadas de exaustão e de carga mental.
O segredo do desejo responsivo: a chave para a sua libertação
Chegou a hora de mudarmos a perspectiva. Por muito tempo, acreditamos que o desejo funcionava de uma única forma: primeiro vem a vontade incontrolável (o desejo espontâneo) e, depois, a intimidade. Isso é muito comum no início dos relacionamentos, quando a paixão domina e aquele relacionamento é mais importante do que todo o resto. Contudo, a ciência e a psicologia nos mostram que, para a grande maioria das mulheres, o desejo funciona de forma diferente a longo prazo.
Apresento a você o conceito de desejo responsivo. Isso significa que a vontade não surge do nada, enquanto você lava a louça. Ela surge em resposta a um estímulo. Primeiro vem a intimidade, o toque sem intenção de performance, o carinho, o cheiro, o relaxamento. É a partir desse espaço seguro e gostoso que o seu corpo desperta e diz: “Ah, isso é bom. Eu quero mais disso”.
E, ouso dizer, que em estados atuais onde o contato é mais raro e o olho no olho está se transformando numa moeda escassa. Fica cada vez mais difícil de despertar essa energia em nós.
Compreender isso é revolucionário. Tira a pressão de ter que estar “pronta” antes mesmo de começar. O seu papel não é fabricar o desejo do zero, mas sim permitir-se entrar no clima, sabendo que a vontade pode surgir ao longo do caminho.
Como despertar a sua deusa interior de forma leve e natural
Para resgatar essa mulher sensual, feminina e dona de si, precisamos substituir a cobrança pelo autoconhecimento. A sensualidade verdadeira não grita; ela sussurra. Ela mora na forma como você se trata.
Abaixo, compartilho estratégias práticas e acolhedoras para você reativar a sua energia vital e a sua intimidade:
Desconstrua a ideia de performance
A intimidade não é uma apresentação onde você precisa tirar nota dez. Converse com seu parceiro. Explique que você precisa de mais tempo para desligar a mente do modo “resolução de problemas”. Combinem momentos de toque, massagens ou apenas ficarem abraçados sem a obrigatoriedade de que isso termine em relação sexual. A ausência da pressão é o maior afrodisíaco que existe.
Crie momentos de intimidade e de conexão, para que a chama se acenda da paixão.
Cultive a sua sensualidade no dia a dia
A sua feminilidade não deve ser ativada apenas no quarto escuro. Traga a sensualidade para as pequenas coisas. Compre uma lingerie confortável, mas que te faça sentir linda, apenas para você. Use o seu perfume favorito para ficar em casa. Sinta o tecido da sua roupa. A sensualidade é, antes de tudo, o ato de habitar os próprios sentidos com prazer.
Em vez de cobrar do parceiro, você pode olhar parar si. A coisa mais linda é quando nós, conseguimos sentir. Por isso, a primeira pessoa que deve agradar é a si mesma. Se seduza, se conquiste, se apaixone pela mulher que você é.
Não é sobre o seu corpo, mas como você se sente e se conecta consigo mesma.
Esvazie a mochila antes de dormir
Crie um ritual de transição entre o seu dia agitado e a sua noite. Escreva em um papel todas as pendências de amanhã, tome um banho morno imaginando a água levando o estresse embora e deixe o celular longe da cama. O seu cérebro precisa de um “aviso” de que o turno de trabalho acabou.
Inclusive vale a leitura do texto A síndrome da mulher que dá conta de tudo.
Honre os seus “nãos” para valorizar os seus “sins”
Se o corpo pedir descanso, descanse sem culpa. Dizer “hoje eu só preciso de um abraço e dormir” é um ato de respeito por si mesma. Quando você se permite não estar pronta sempre, os momentos em que você genuinamente tem vontade tornam-se muito mais intensos e verdadeiros.
O resgate do seu próprio corpo
Você é uma mulher incrível, múltipla e poderosa. A sua feminilidade não é medida pela frequência com que você tem relações, mas pela autenticidade com que você vive a sua própria vida. Quando você abraça as suas fases, os seus momentos de cansaço e a sua real necessidade de afeto, você se torna inabalável.
Dê a si mesma o direito de fluir no seu próprio ritmo. Volte a namorar a si mesma e se olhe no espelho com generosidade. O prazer é um direito seu, não uma tarefa a ser cumprida. Quando você solta as rédeas da perfeição, a magia da conexão verdadeira finalmente encontra espaço para acontecer.
Como você tem cuidado da sua conexão com o próprio corpo ultimamente? Compartilhe este texto com aquela mulher maravilhosa que precisa lembrar que o cansaço não a torna menos feminina.
Se sentir confortável, vá no meu instagram e me deixe um comentário contando qual pequeno ato de autocuidado e sensualidade você vai incluir na sua rotina hoje. Vamos juntas transformar a culpa em libertação.