TDAH não é falta de vontade, preguiça ou desleixo. Essa é a primeira verdade que você, familiar de alguém com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, precisa entender profundamente.
Você já ficou exausto tentando entender por que seu filho, esposa ou marido esquece compromissos importantes? Por que ele procrastina até o último segundo? Por que parece que simplesmente “não se importa” com coisas que são fundamentais para você? E aí vem aquela frustração silenciosa: “Se ele realmente quisesse, ele conseguiria. Ele só não está tentando o suficiente.”
Se você pensou isso alguma vez, saiba disso agora: não é verdade. E não é culpa sua pensar assim, porque ninguém explica direito o que está acontecendo no cérebro da pessoa que você ama.
Deixa eu te contar algo que vai mudar completamente como você vê essa pessoa e, consequentemente, como vocês se relacionam. Combinado?
Um padrão com pessoas com TDAH
Esse artigo nasceu da necessidade de um paciente explicar para a família sua própria neurodivergência. Ele me pediu algo que fosse útil e que explicasse, de forma prática, o que é o TDAH para sua família.
Então, vamos explorar esse assunto juntos.
É comum ter cônjuges, pais, mães que chegam esgotados aqui no consultório dizendo: “Doutora, eu não aguento mais. Ele não muda. Ela não melhora. Eu já expliquei mil vezes, e continua a mesma coisa.”
E aqui está o que ninguém fala: você está explicando para a pessoa errada. Você está explicando para a mente dela (pensamentos, intenções, vontade). Mas o problema está no cérebro dela (hardware neurobiológico).
É assim: imagine que você está tentando rodar um programa de computador muito complexo em um computador com processador lento. Então, você pode querer muito que o programa funcione, inclusive pode tentar muito. Mas se o hardware não suporta, o software não vai rodar.
TDAH é um problema de hardware cerebral, não um problema de software (vontade, caráter, moral). Quando o cérebro funciona bem, a pessoa funciona bem. Quando o cérebro está em dificuldade, a vida dela e, consequentemente, a sua fica muito mais difícil.
Então vamos entender o hardware. Pois acredito que ao entender isso, você muda sua perspectiva sobre a sua própria vida.
O Córtex Pré-Frontal: O CEO que está em crise
Todos nós temos uma região no cérebro chamada de Córtex Pré-Frontal que podemos chamar de CEO do corpo. Essa área do cérebro é responsável por:
- Foco e concentração.
- Controle de impulso (o “freio” do cérebro).
- Organização e planejamento.
- Previsão e julgamento.
- Aprendizado com os próprios erros.
- Empatia.
Agora imagine que o CEO da empresa está sonolento. Está com baixa energia e por isso, não está tomando decisões bem e não está coordenando os outros departamentos direito.
O que acontece com a empresa? Ela entra em crise. Não é mesmo? Não porque os funcionários são ruins, mas porque o líder (o córtex pré-frontal) não está conseguindo liderar.
Quem possui TDAH, o Córtex Pré-Frontal está frequentemente em baixa atividade. Está “sonolento”! E por isso, todas essas funções executivas ficam comprometidas.
Não é que a pessoa não quer se controlar. A verdade é que o seu freio neurobiológico está com defeito.
Dopamina: o combustível que falta
Aqui está outro detalhe fundamental: TDAH é, em muitos casos, um estado de baixa dopamina. A dopamina é um neurotransmissor (mensageiro químico) essencial para foco, motivação e controle de impulso.
Quando há baixa dopamina, o cérebro precisa de estímulos extras para funcionar. Por isso que a pessoa:
- Consegue focar perfeitamente em coisas novas, interessantes ou assustadoras (porque essas atividades geram dopamina naturalmente)
Mas…
- Não consegue focar em tarefas chatas, rotineiras, do dia a dia (porque não há dopamina suficiente para sustentar foco)
Não é preguiça e também não é falta de interesse. É que o cérebro da pessoa só consegue focar quando há dopamina suficiente. E tarefas rotineiras não geram dopamina.
Isso explica por que ele passa horas jogando videogame, mas não consegue organizar os documentos. Videogame gera dopamina a cada segundo, já os documentos não geram nada.
É frustrante? Sim. Mas agora você entende: não é escolha dele.
É difícil de entender, eu sei…
Eu te vejo aí do outro lado. Frustrada, com raiva até… e achando que isso tudo é mais uma desculpa para não fazer e que toda essa carga fica em cima de você. Você se preocupa com a pessoa, mas também com a ordem do dia-a-dia, com a rotina e com as atividades.
Tem medo de que o marido esqueça o filho na escola, que a esposa não consiga manter seu trabalho, que o filho tire baixas notas. Sim, eu te entendo é bastante informação.
Porém, saiba que tudo isso tem tratamento e estratégia. Ok? E meu papel é te ajudar através da psicoeducação, como neste artigo, ou com as próprias consultas.
Por que irritabilidade e mau humor acontecem
Agora, trazendo o tema da irritabilidade e mau humoir. Aqui está algo que familiares e cônjuges de pessoas com TDAH me perguntam muito: “Por que ele é tão irritável? Por que pequenas coisas geram explosões?”
Existem três razões neurobiológicas principais, deixa eu te explicar:
Razão 1: busca inconsciente de dopamina
Pessoas com baixa dopamina podem ser dirigidas por conflito. Eles iniciam discussões, provocam o parceiro, criam atrito. E isso não é porque querem brigar, mas porque o cérebro está buscando uma descarga emocional que aumente dopamina e “ligue” o Córtex Pré-Frontal.
É como se o cérebro precisasse do estresse do conflito para funcionar. E infelizmente, é automático.
Razão 2: dificuldade em mudar o foco
Alguns tipos de TDAH têm dificuldade em mudar o foco. Eles ficam presos em pensamentos negativos, rancores, preocupações. É como se o cérebro tivesse um “trocador de marcha” emperrado. Dessa forma, a pessoa vê erros (em si e nos outros) e não consegue soltar. Assim, parece argumentativo, inflexível e rancoroso.
Não é maldade. É que o cérebro está preso em um loop neurobiológico.
Outro ponto importante, que temos que tomar cuidado no diagnóstico e entender se há outras comorbidades além do TDAH que ajudam, iniciam ou intensificam essa característica.
Razão 3: Córtex Pré-Frontal comprometido (pavio curto)
O Córtex Pré-Frontal prejudicado está diretamente associado a falta de controle de impulso. Por isso, a pessoa tem pavio curto não porque é má, mas porque o “freio” neurobiológico (o Córtex Pré-Frontal) está comprometido. Assim, a pessoa não consegue inibir a reação automática de raiva.
É como dirigir um carro cujo freio responde alguns segundos atrasado. Você consegue parar? Sim. Mas não rapidamente. E muita coisa já aconteceu nesses segundos.
Inclusive há um paciente que relata que ele inicia a briga, percebe em alguns segundos o erro, mas o negócio escalou de um jeito, que há adrenalina e dopamina circulando no corpo, que quer mais! Ele quer continuar a briga, para vencer e pelo prazer. Só quando a adrenalina verdadeiramente cai, que percebeu o erro. Ele mesmo afirma: “Quando eu venço, na verdade eu perco, pois minha esposa agora está triste, minha família fica triste. Já machuquei muita gente e dizer “desculpas” não funciona mais.“
Por que ele procrastina tudo (e só age no último segundo)
Você já percebeu que a pessoa com TDAH só começa a trabalhar quando está atrasado? Quando a pressão está insuportável? E se perguntou: “Por que ele não começa antes?”
Aqui está a verdade neurobiológica: ele precisa do estresse para funcionar.
Com baixa dopamina basal (de repouso), o cérebro só consegue ligar o Córtex Pré-Frontal quando há um aumento de ansiedade e estresse. É o famoso “Oh meu Deus, estou atrasado!” que finalmente força o cérebro a liberar dopamina suficiente para começar.
Não é que ele gosta de estresse, peço que não confunda isso. Entenda que o cérebro dele precisa de estresse para gerar dopamina suficiente para funcionar. É dependência de crise. Não é uma escolha, mas neurobiologia.
E o tal do hiper foco?
Aqui está algo que gera muita frustração: você vê a pessoa passando 6 horas focado em algo que ele ama (videogame, hobby, projeto pessoal). E pensa: “Se ele consegue focar NISSO, por que não consegue focar em lavar a louça?”
Porque hiper foco não é controle. Na verdade é que a atividade está gerando sua própria dopamina. O cérebro dele não está escolhendo focar. Está automaticamente focando porque há dopamina suficiente.
Quando ele tenta focar em lavar louça, não há dopamina. Por isso, o cérebro não liga, e não é falta de vontade.
Até trazendo outro caso: tenho uma paciente que me relata sua facilidade para estudar programação, em pegar desafios difíceis. Já me contou que ficou 16 horas sem levantar da cadeira para comer ou ir ao banheiro, pois estava extremamente concentrada no desafio. E isso se repete, pois quando encontra um desafio, quase não dorme até ser resolvido.
Entende a diferença? Talvez, ela até consiga fazer algo que você acredita impossível, pois em casos assim, ela tem energia e foco de sobra.
O que acontece quando TDAH não é tratado?
Vou ser honesta com você: deixar TDAH sem tratamento tem consequências sérias, infelizmente. Porque as decisões e comportamentos afetam relacionamentos, carreira e até mesmo a própria saúde.
O que vejo aqui no consultório de pessoas que tem TDAH não tratado e o que geralmente acontece em suas vidas:
- Alto índice de divórcio, pois fica realmente difícil de conviver.
- Abuso de substâncias. É a busca de dopamina.
- Falência financeira, devido a gastos e impulsos.
- Problemas escolares ou profissionais graves.
Além disso, o estresse crônico de conviver com alguém cujo cérebro está em dificuldade pode até causar danos ao seu próprio cérebro. Por isso, que eu falo que te entendo. Esse estresse é ruim e por isso que ajuda não é algo que se espere por muito tempo.
Então tratar não é luxo, é necessidade. Para a pessoa com TDAH e para você.
A boa notícia: TDAH é tratável (e você pode ajudar)
Agora quero compartilhar com você uma mensagem de esperança: você não está preso ao cérebro que você tem. Qualquer um pode melhorar seu próprio hardware.
Então, TDAH é tratável e, aqui no consultório, a taxa de sucesso é muito alta. E acredito que não é por rigidez, mas por consciência. Gosto de trazer bem os conceitos ser bem clara nos tratamentos. Assim, a estratégia se torna eficaz para cada pessoa. Além disso, gosto do envolvimento sadio da família e cônjuges para melhorar ainda mais a experiência pra todos.
Na minha diretriz, o tratamento precisa ser integrado:
1. Avaliação correta
Tudo começa com uma avalição e identificação do tipo de TDAH. Além disso, há uma análise de outras comorbidades, o comportamento atual e o histórico do paciente. TDAH não “surge” de uma hora para outra. É uma condição que se apresenta desde a infância.
Dica de leitura: TDAH, a importância do diagnóstico rápido.
Com o diagnóstico correto, conseguimos montar uma estratégia de tratamento adaptada para cada paciente. Não falo apenas de medicação, pensamos num todo.
2. Dieta e estilo de vida
O TDAH tem foco no hardware do cérebro, sendo assim ele processa as coisas de forma diferente. Por isso, ajustar o hardware através de mudanças comportamentais é essencial.
Junto com a medicação (que falo logo abaixo), indico mudança de alimentação e de estilo de vida.
Muitas pessoas melhoram significativamente com mudanças de dieta (eliminando glúten, laticínios, corantes artificiais e açúcares excessivos, por exemplo). Uma dieta rica em açúcares pode piorar o TDAH ao diminuir dopamina.
Além disso, fazer exercícios regularmente, especialmente os de coordenação motora, como tênis de mesa, dança e artes marciais, aumenta dopamina e fluxo sanguíneo para o Cortex Pré-Frontal. É altamente benéfico.
Por fim, o mais importante do estilo de vida é o sono. O sono é crucial para descanso e organização da mente. A privação de sono faz qualquer cérebro parecer ter TDAH (e até vem vários diagnósticos errados daí).
3. Medicação
Alguns casos de TDAH gosto de tratar com estratégias primeiro e medicação depois. Dentre essas estratégias estão todos os itens anteriores como alimentação, sono e exercícios. Porém, algumas vezes precisamos entrar com medicação para dar um start. O cérebro precisa se reorganizar, para organizar a vida.
Um paciente me fala que quando ele tomou a medicação correta, na primeira semana ele começou a organizar o escritório, passou dias arrumando papéis, pastas no computador e percebeu que tudo ficou mais claro. Semana seguinte ele começou a perceber que suas tarefas não ficavam mais atrasadas. Por fim, conseguiu encontrar tempo para melhorar o sono e exercitar. Agora, está em processo de reduzir a medicação, pois a dopamina e noradrenalina já estão vindo de outros estímulos.
A medicação estimulante, quando apropriada e sob orientação médica, pode ser a ferramenta necessária para otimizar o seu Córtex Pré-Frontal. Aliás, acho que esse é um termo interessante de pensarmos sobre o TDAH. Otimização do seu hardware para melhor desempenho.
4. Terapia comportamental
Durante o dia a dia, é importante desenvolver estratégias como externalizar memória, organização visual, fragmentação de tarefas e body doubling. Essas atividades ajudam o cérebro a funcionar melhor.
Recomendo que leia o artigo: As 10 estratégias que funcionam para quem tem TDAH.
No artigo coloco as 10 estratégias que mais funcionam com meus pacientes, porém ainda existem outras que descubro junto com meus pacientes. Por exemplo, quando trouxer seu cônjuge ou familiar aqui, estudarei seu ambiente e comportamentos, para criarmos juntos estratégias práticas!
Se decidir ajudar a pessoa querida por meio de um tratamento comigo, entre em contato por aqui.
Como você, familiar, pode ajudar?
Quero compartilhar com você, algumas sugestões de como você pode ajudar sem se esgotar:
1. Mude a perspectiva: de “Ele é mau” para “Ele está doente”
Ver o problema através de lente neurocientífica (hardware/software) diminui julgamento e aumenta compaixão. Mas, um alerta, isso não significa aceitar comportamento ruim. Isso, significa entender a raiz para poder tratar.
2. Defina juntos o que vocês querem alcançar
Sentem e definam: “Como queremos que seja nosso relacionamento?” (Ex: gentil, atencioso, solidário, apaixonado). Escrevam em uma página e cole na geladeira. Sim, para a pessoa que tem TDAH, as coisas precisam estar visíveis.
Quando houver conflito, pergunte: “O que estou fazendo agora se encaixa no relacionamento que queremos?” Com perguntas, você ativa o Córtex Pré-Frontal e ajuda a inibir impulsos negativos. Inclusive, essa é uma grade dica para ajudar no foco da pessoa também.
3. Pratique empatia
Tente ver do ponto de vista dele. “Se meu cérebro funcionasse assim, como seria?” A empatia diminui julgamento, e julgamento só piora o TDAH. Pois, aumenta vergonha, que diminui dopamina.
4. Note o positivo
Concentre-se em notar o que você gosta no comportamento dele, em vez de focar no que você não gosta. Quando você nota e reconhece o bom, você molda o comportamento ao notar positivo.
E lembre-se: não é fingir que problemas não existem. É reconhecer que crítica constante piora TDAH, pois aumenta a produção de cortisol e diminui a dopamina. Elogio genuíno melhora o TDAH e o relacionamento.
5. Estabeleça estrutura externa
Como o Córtex Pré-Frontal está comprometido, utilize de estrutura externa para ajudar. Falo muito disso, no artigo das 10 estratégias para o TDAH, por exemplo:
- Alarmes para lembretes
- Calendário compartilhado
- Listas visuais
- Rotinas consistentes
Você não está “fazendo para ele”. Está compensando déficit neurobiológico até que ele aprenda e consiga compensar sozinho.
As famílias que se adaptam
Aqui no consultório é lindo de ver o resultado da implementação de estratégias. Famílias relatam que:
- “O relacionamento melhorou drasticamente”
- “Paramos de brigar por coisas pequenas”
- “Ele começou a funcionar melhor”
- “Eu parei de me sentir tão esgotada”
- “Fiquei mais produtivo no trabalho”
- “Recebi uma promoção”
Mas aqui está o detalhe: isso requer consistência. Não é escolher uma estratégia, implementar uma vez e esperar milagre. É a constância que criar um novo padrão de interação.
E aqui está outra verdade: você, como familiar ou cônjuge, também precisa de apoio. Conviver com TDAH não tratado é exaustivo. E você não precisa fazer isso sozinho. Entendeu?
Se você quer ir mais fundo
Se seu familiar foi diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou vocês têm suspeita, se querem entender profundamente como tratar de forma integrada, eu te convido a entrar em contato e agendar uma consulta.
Porque quando vocês entendem juntos a neurobiologia, param de se culpar mutuamente. E começam a trabalhar como time contra o problema e não um contra o outro.
Se isso faz sentido para vocês, agende consulta aqui ou mande uma mensagem.
Sua jornada para um relacionamento mais saudável e funcional começa quando vocês entendem que TDAH não é falha. É problema de saúde, e problemas de saúde são tratáveis.
Ahn! E não deixe de ler o guia completo com as 10 estratégias de organização para TDAH e outros artigos sobre Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade aqui no blog.
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Se você conhece outras famílias lidando com TDAH, compartilhe este artigo. Porque a primeira coisa que familiares de pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade precisam ouvir não é “ele precisa tentar mais”. Elas precisam ter a perspectiva de que é tratável e que todos podem ter uma vida incrível juntos.