Preguiça ou depressão? Essa pergunta aparece no meu consultório quase toda semana, às vezes com outras palavras, às vezes chorando. E foi justamente com ela que a Ana Mediolaro me recebeu no podcast ATuaMente.
A Ana é psicóloga clínica e hipnoterapeuta e, de quebra, minha vizinha de prédio. A gente já divide pacientes faz tempo, então a conversa saiu leve, quase papo de corredor. Gravamos num feriado e foi mais de uma hora de conversa, e neste post eu coloco o que ficou de mais importante.
E se você quiser, pode assistir a entrevista completa aqui:
Antes de seguir, um combinado: o que trago aqui vem da minha experiência clínica, mas cada pessoa é única. Este texto não substitui uma avaliação.
Preguiça ou depressão: a primeira coisa que eu olho
Quando alguém me diz “doutora, eu não tenho vontade de fazer nada”, eu quero saber o que exatamente a pessoa não está conseguindo fazer.
Porque existem dois cenários bem diferentes. Num deles, a pessoa não dá conta de uma rotina que, sinceramente, nenhum ser humano daria: trabalhar dezesseis horas, treinar, estudar, cuidar da casa, postar e ainda estar bem. Essa pessoa não está com preguiça. Está exausta de tentar sustentar uma estrutura impossível.
No outro cenário, ela não consegue fazer o básico. Tomar banho, levantar da cama, comer, ir trabalhar. Aí a conversa muda. Já não é uma questão de força de vontade, e vale investigar se existe uma depressão instalada, com aqueles pensamentos de tristeza e de “eu não sirvo pra nada”.
Quando é hora de procurar ajuda?
Fases ruins existem, e todo mundo passa por elas, não é mesmo? O que me acende o alerta são duas coisas: o tempo e a funcionalidade.
Se faz muito tempo que a pessoa está arrastada, se começou a faltar no trabalho, a se isolar, a desmarcar o café com as amigas, a descuidar de si, provavelmente não é só uma fase.
E aqui vai um pedido para quem convive com alguém assim. Às vezes a própria pessoa não percebe. Então escute. Chegue perto e diga “percebi que você está diferente, posso te ajudar?”. Muitos pacientes chegam até mim justamente porque alguém de casa teve essa coragem.
E eu disse no podcast: as pessoas estão chegando mais doentes. Adiam por vergonha, ou porque acham que vão resolver sozinhas. Quando o quadro é leve, atividade física e psicoterapia muitas vezes dão conta, sem remédio. Quando já está grave, falta energia até para levantar, e um tratamento que duraria seis meses se arrasta por anos.
O corpo também sente o que a mente carrega
Muita gente acredita que adoecer da mente é coisa “da cabeça”, quase uma invenção. Eu escuto muito isso: “fui no pronto-socorro em crise e disseram que não era nada”.
Não aparecer no exame não quer dizer que não existe. O estresse faz o corpo produzir cortisol e adrenalina, ele entra no modo luta e fuga, e daí vêm o formigamento nas mãos, a falta de ar, o aperto no peito, a tontura. Começou na mente, mas o corpo sente de verdade.
Contei também a história de uma paciente que dizia ter “encaixotado” o passado. Eu perguntei: você já reparou quanto espaço ocupa uma caixa? Você tropeça nela, ela junta poeira, e você nem lembra mais o que tem lá dentro. Autoconhecimento, pra mim, é isso. Abrir as caixas e fazer uma faxina, com carinho e sem crueldade com quem a gente já foi.
TDAH, ansiedade ou esgotamento? Cuidado com o autodiagnóstico
A Ana me perguntou se dá para diferenciar preguiça, TDAH, ansiedade, depressão e burnout. Eu chamei de salada de sintomas, porque todos eles podem roubar o seu foco.
Que bom que hoje se fala tanto de TDAH. Mas me preocupa o diagnóstico que vem das redes, da inteligência artificial ou do amigo que “tem e acha que você também tem”. O TDAH começa na infância. E se você dorme às duas da manhã, se alimenta mal e não descansa, nenhum cérebro vai funcionar bem.
Disciplina não é viver no ritmo dos outros
Pra fechar, falamos de alta performance. Tenho uma amiga que acorda às quatro da manhã para treinar. Acho lindo isso, eu mesma tentei uma vez e nunca mais. Não é o meu funcionamento! O meu é treinar no horário do almoço, ou deixar a roupa no carro para ir no fim do dia, mesmo sem vontade.
Disciplina é você com você. É cumprir as suas metas dentro do que você consegue, e não copiar a rotina de quem você só vê pela tela. Ninguém está isento do sofrimento, nem quem parece perfeito no Instagram.
No meio da conversa a Ana me pediu os três ingredientes de uma boa psiquiatra. Respondi acolhimento, estudo e humildade. Humildade para entrar na intimidade do outro e, quando for preciso, rever caminhos.
Se algo deste texto mexeu com você, assista à entrevista completa. E se precisar, as portas do meu consultório estão abertas, aqui em Jundiaí ou online para todo o Brasil.
Assista ao episódio completo no youtube: https://youtu.be/jwDQvhIzPb8